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Jurandi
Assis, O Inventário do Cotidiano
Por Nereide Schilaro Santa Rosa, primavera de 2005
"Não há limite na luta para a realização de um sonho".
Jurandi afirma ao final de sua história. Um sinal de que sua
busca foi sempre intensa e profunda. Emotiva e envolvente.
Tal como o são seus traços, suas linhas e cores. Formas e
raízes que se confundem, e conduzem ao seu próprio universo
revelado nas linhas e entrelinhas.
No texto, as
formas e as palavras são envolvidas e dissecadas a cada
momento. Afinal o ato de escrever requer coragem e contar a
própria história requer maturidade e discernimento. Na tela,
as formas e as cores sensíveis são harmônicas e
equilibradas. Afinal, expor desenhos e pinturas é revelar o
próprio âmago, suas certezas e incertezas, sua forma de
olhar o mundo e representa-lo.
Trata-se de
história repleta de momentos que ficarão para sempre
impressos nas superfícies planas das telas ou em simples
papéis em branco. A descoberta da pintura para Jurandi foi a
porta de sua conquista, feita passo a passo, simplesmente
por ter a coragem de acreditar em si mesmo. A sua busca de
caminhos e contatos, do ensino e da aprendizagem revelam que
o sucesso é inevitável para quem é autodidata como tantos o
foram. O seu testemunho é um exemplo para os jovens
artistas. A sua capacidade de observação desde a tenra idade
e o contato com a cultura popular e as raízes de nosso povo
foram ingredientes que saciaram sua vontade de realização
pessoal e profissional, a busca de seus sonhos através do
pincel e das tintas. Poderia ter escolhido outro caminho...
Mas não o fez. Felizmente. Jurandi nos envolve em seu mundo
de cores e movimentos. Suas figuras não nos parecem
estáticas, elas invocam a sua própria e inquieta alma. Alma
de quem não ficaria semanas delineando uma simples gota
d´água, tal como nos conta em uma de suas passagens. De quem
não ficaria observando o mundo passar, sem assumi-lo e
influenciá-lo. Influência que pode ocorrer apenas com a
oportunidade de um olhar. O olhar do observador que repensa
cores, forma atitudes a partir do contato com a obra de
arte. E é esse o papel primordial do artista: incomodar, e
mais ainda, inferir e criticar. E Jurandi nos provoca ao
revelar os momentos do cotidiano e da luta dos brasileiros
em cada canto deste país. As imagens sugerem dinamicidade e
ação. Brasileiros que brincam, trabalham, se divertem ou
simplesmente esperam. Uma esperança que permeia ações que,
muitas vezes transparecem a alegria do povo, e outra vezes é
expressada em sensíveis imagens. Não há rostos. Na verdade,
não há necessidade de identidade. Estamos todos ali,
presentes, no pequeno espaço da tela. Brasileiros e
brasileiras. Fauna e flora. Cultura popular. Imagens
delineadas em cores quentes aplicadas com suavidade, uma
dicotomia que nos encanta e causa estranheza. Talvez seja
esse o seu segredo. E ainda, os grafites, onde a forma
prevalece e o tema se destaca. Neste livro o leitor
conhecerá este artista e seus desenhos, seus temas e suas
revelações. A história de um brasileiro que teve a arte como
sua companheira. Uma oportunidade ao leitor de se envolver
no mundo das artes, de conhecer as dificuldades e pedras no
caminho, superadas com muita luta por Jurandi. A realização
de um sonho revela o não desistir nunca para sempre vencer,
"de forma natural, abençoada" por seus personagens: homens e
mulheres, violeiros, cantadores, pastores e cavaleiros,
quituteiras e dançarinos, e crianças, muitas crianças com
suas brincadeiras. Todos, que fazem parte de seu universo e
de sua vida revelada, na ponta do lápis.
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