Jurandi Assis, por Oscar D'Ambrosio
Magia da cor

Um dos grandes desafios da arte está em transformar as visões que se têm da própria aldeia em algo universal, que possa ser comunicado a todos, independendo da nacionalidade, região ou mesmo município de nascimento. As grandes imagens da história da arte, assim como os mais importantes textos da literatura, conseguem essa proeza.

Os trabalhos plásticos de Jurandi Assis caminham nessa direção. Nascido em Santa Maria da Vitória, BA, em 1939, ele vem para a metrópole paulista aos 17 anos e consegue desenvolver uma carreira como pintor marcada pela fidelidade aos temas regionais de sua infância e, principalmente, pela forma como trabalha as entradas de luz em sua obra

A pintura, em certos momentos, pelo jogo cromático, chega inclusive a se aproximar das velaturas e transparências próprias da aquarela. Independente da temática, o artista consegue trazer para o seu trabalho, seja na pintura ou no desenho, grande leveza, num tom de fino encantamento e delicadeza.

Mulheres com ou sem rosto, floristas e cenas populares da cultura baiana, como a lavagem do Bonfim, ganham uma dimensão renovada. Não são meras reproduções do real, mas oportunidades do artista exercitar a sua técnica, desenvolvida ao longo dos anos a partir de um determinado repertório de imagens.

Sambistas, pescadores e mercadores de cavalos ganham assim uma dimensão quase mítica. O observador menos ingênuo pode se deliciar justamente com as possibilidades cromáticas – e menos com o referente concreto que ele encontra em cada imagem.

No que diz respeito aos assuntos enfocados pelo artista baiano, um dos mais significativos, além dos citados, é o da música. Mulheres com instrumentos musicais, por exemplo, compõem universos em que ocorre a harmonia das cores e do imaginário som se articulam em um universo marcado pela relação entre as nuances obtidas por efeitos de luz.

Fiel aos temas de sua aldeia, do universo do interior da Bahia, Jurandi Assis sabe como dar a cada desenho ou pintura um toque pessoal num recurso pictórico que torna cada tela a oportunidade de conhecer melhor como o artista articula blocos para obter o efeito desejado. A atmosfera baiana que ele apresenta ao observador, ao contrário do que parece num primeiro momento, não se fecha no regionalismo.

O estilo de composição utilizado e o intenso cromatismo apontam para o estabelecimento de uma realidade visual própria, que extrapola a interpretação local, regional ou nacional, adquirindo um valor universal, que encanta públicos de todas as procedências, seja pelas imagens não habituais no Sudeste do País ou pela maneira muito própria de dar ao seu talento uma dimensão estética diferenciada.

Jurandi Assis, por Oscar D'Ambrosio
O grafite de Jurandi Assis

O ato de desenhar possui uma magia muito especial. A sua complexidade está no fato de ser a melhor oportunidade para treinar a percepção e discutir elementos de composição, tons, distância, profundidade e textura. Trata-se de um processo que elabora uma sistemática visual.

A prática leva a uma espécie de alfabetização. Mesmo que seja uma criação, como é o caso de Jurandi Assis, no que diz respeito, por exemplo, à divisão de áreas, há referências concretas. Para o artista baiano, elas estão na música, na infância, nos pescadores, no folclore e nos vaqueiros, entre outros temas.

O desenho, como dizem os chineses, é o osso da pintura. É ele que possibilita uma educação do olhar, ainda mais quando feito em branco, modalidade que, no oriente, é vista como a mais nobre e a utilizada nas academias de pintura para avaliar os alunos. No diálogo entre o que se deseja esconder e o que se mostra nasce o encanto.

Jurandi Assis dá ao seu grafite a dimensão de um universo de grisalhas, onde cada cinza nasce da construção resultante da conversa entre aquilo que o artista vê, o que ele imagina ver e o que deseja criar. A técnica e a sensibilidade geram, assim, um trabalho de impacto e pesquisa visual do qual o observador não sai indiferente.

Oscar D'Ambrosio, jornalista e mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unesp, integra a Associação Internacional de Críticos de Arte (AICA- Seção Brasil).