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O menino
Jurandi Assis.
Cristóvão
J.Z. Wieliczka
A história começa no município de Santa Maria da Vitória, à
beira do rio Corrente, no agreste sertão baiano.
Era o ano de 1939, no finalzinho do mês de março, numa
tardinha quente, na praça central, na porta do cartório, um
imponente e velho sobrado.
Pela janela da sala de entrada via-se o vermelhão do poente,
contrastando com o azul do céu que provocava um cenário
maravilhoso e um reflexo encantador nas águas aparentemente
mansas do rio.
Ao longe, no horizonte distante, os campos e os morros
confundiam-se na mistura das cores do dia que ia morrendo.
O sino da igreja matriz em frente ao cartório bateu seis
vezes.
Era a hora mágica, a hora da Ave Maria.
Dentro do cartório, um burburinho. Registrava-se o
nascimento de uma criança do sexo masculino.
Era Jurandi Queiros Assis. Filho de família razoavelmente
abastada e numerosa.
Descendente de avós espanhóis e pais brasileiros.
O tempo passava e Jurandi saiu do colo da mãe e do berço,
aprendeu a andar e aprendeu a falar.
O tempo passava e o menino crescia no meio das tradições,
folclore e costumes locais. Era um Brasil rústico, um Brasil
distante, um Brasil quase perdido no mundo.
O tempo avançava.
Aos seis anos Jurandi ganhou do seu pai um tinteiro de
cristal. Não era um brinquedo, era um tinteiro. Naquela
época molhava-se a pena da caneta na tinta para escrever.
Jurandi notou que o tinteiro de cristal produzia feixes de
luzes coloridas ao ser exposto à luz do sol. Jurandi se
encantou com as cores.
O tempo passava e, como toda criança, Jurandi foi à escola.
Jurandi teve seus cadernos, livros, régua, borracha, lápis
preto, caixa de lápis de cor e blocos de papel.
Jurandi começou a aprender as coisas, começou a ler,
começou a escrever e começou a desenhar.
Jurandi era um menino muito esperto e curioso, e descobriu
que aquela cidadezinha à beira do rio, apesar de quase
perdida no mundo, era cheia de atrações, cheia de movimento.
Sua própria casa era grande e rodeada por um enorme quintal.
Uma verdadeira chácara para os padrões atuais.
Ao seu redor brincavam as crianças da vizinhança soltando
pipas. Também trabalhavam e circulavam os vaqueiros, os
cavaleiros, os lenhadores, as pilandeiras, enfim, gente do
campo.
Jurandi depois da escola ficava às vezes na varanda da
cozinha da sua casa por horas vendo e desenhando as crianças
a brincar. Com lápis e papel na mão, Jurandi traçava suas
linhas. Linhas retas, linhas curvas, traços fortes, traços
fracos. Sombras.
Pronto, mais um desenho estava pronto: Meninos soltando
pipas.
Jurandi guardava seus desenhos numa grande pasta amarela,
presente de sua avó.
O tempo passava.
Dia após dia, de segunda à sexta-feira, Jurandi ia à escola.
Jurandi estudava.
Jurandi desenhava.
Jurandi brincava, mas também observava tudo o que acontecia.
Havia freqüentemente nas tardes um vai e vem de animais e
carros de boi passando pela cidade.
No rio Corrente transitavam os pescadores com seus barcos
ostentando imponentes carrancas do mestre Guarany.(*)
De manhãzinha viam-se as lavadeiras na beira do rio, e à
noitinha homens com baldes iam buscar água.
Barco novo atracado no cais era curiosidade geral. Toda
cidade ia ver.
A cidadezinha estava sempre em movimento. Por todos os
cantos havia gente, adultos e crianças.
Na pracinha as crianças costumavam jogar bola.
Na ladeira, ao lado de sua casa, um grupinho vivia a correr
atrás de aros.
Na beira do rio uma turminha jogava bolinha de gude e
brincava com as jandaias.
Nas ruas, as baianas com seus tabuleiros vendiam doces,
flores e frutas.
Pelos bares da cidade, músicos tocavam e cantavam.
Nos armazéns homens e mulheres compravam e vendiam.
Um homem com um realejo e uma jandaia aparecia a cada dia
numa outra esquina.
Aos domingos surgiam dos arredores os violeiros e o padre
rezava a santa missa na igrejinha matriz.
Quando era festa de dia-santo ou alguém morria, lá se iam as
infindáveis procissões, ora em torno da praça central, ora
direto para o cemitério.
Vez ou outra passava pela cidade um grupo de retirantes
dirigindo-se para o sul. Todo mundo ficava olhando e
pensando qual seria o destino deles.
Pois é, movimento era que não faltava.
Jurandi desenhava todas essas figuras.
Às vezes, como já foi dito, Jurandi ficava na varanda da sua
casa desenhando, outras vezes saia a desenhar pela cidade,
ora na beira do rio Corrente, ora no campo, longe de casa,
levando sempre consigo seu material de desenho.
Lápis, borracha, papel e prancheta.
O tempo passava.
E ano após ano que passava, Jurandi estudava e desenhava.
Todos na cidade gostavam e pediam seus desenhos.
Jurandi passou a ficar famoso numa cidadezinha muito
pequena.
Num certo momento, despertou em Jurandi a vocação para ser
artista.
Jurandi cresceu.
Jurandi estava moço quando descobriu que, para realizar o
seu sonho de ser artista, não podia mais ficar em Santa
Maria da Vitória, pois a cidadezinha era pequena demais.
Jurandi tomou uma decisão. Ir para São Paulo. Um novo mundo.
Uma grande aventura de vida o esperava.
Jurandi aos dezessete anos saiu de sua cidade natal,
deixando todos os parentes e amigos de infância.
Na viagem de muitas peripécias Jurandi levou pouca bagagem,
muita saudade e imagens na memória.
Imagens dos vaqueiros, dos cavaleiros, dos lenhadores, das
pilandeiras, da gente do campo, das lavadeiras, dos
pescadores, dos barcos, das carrancas do rio Corrente, dos
meninos soltando pipas, dos meninos correndo atrás dos aros,
dos meninos jogando bola, das crianças jogando bolinha de
gude e brincando com as jandaias, das floristas, das baianas
com seus tabuleiros vendendo doces e frutas, do homem do
realejo, das cenas de carnaval, dos retirantes, do
bumba-meu-boi, dos violeiros, das tradições. Enfim, imagens
de tudo o que vira e vivera até então.
Era o ano de 1956 quando Jurandi chegou em São Paulo.
Um susto. O tamanho da cidade.
Em São Paulo Jurandi se hospedou numa pensão perto do
centro.
Saia a toda hora para conhecer a cidade e à procura do seu
primeiro emprego. Finalmente achou, começou como office boy.
Depois foi balconista e em seguida auxiliar de escritório.
Sempre desenhando nas horas de folga as imagens que lhe
ficaram na memória.
Fez novos relacionamentos e através de um amigo engajou-se
numa empresa para ser desenhista.
Nessa empresa progrediu e também foi se profissionalizando.
Uma novidade. Jurandi, agora, além de desenhar começou a
pintar. Não mais somente lápis e papel faziam parte da sua
vida, mas também as tintas, as telas, os cavaletes e os
pincéis.
Como homem comum, nada lhe foi muito diferente na vida.
Jurandi trabalhava.
Jurandi namorou e casou. Jurandi teve filhos. Jurandi
comprou sua casa.
E no meio de tudo isso, persistia sempre em desenhar e
pintar suas floristas, suas baianas e demais personagens que
guardava na memória, lembranças da sua distante Bahia.
O tempo avançava.
Jurandi trabalhava dia após dia.
Na década de 1970, Jurandi estreou como artista e iniciou a
sua jornada de exposições. Suas obras passaram a ser
expostas em importantes galerias e espaços culturais.
Na década de 1980, o leiloeiro Mauro Zuckerman adquiriu de
Jurandi centenas de telas. Foi aí que Jurandi Assis ficou
conhecido e suas obras foram parar nos quatro cantos do
mundo.
Na década de 1990 Jurandi resolveu escrever um livro
contando um pouco sobre a sua vida.
Dia e noite, noite e dia, estava lá Jurandi, trabalhando,
desenhando, pintando e escrevendo.
Finalmente o livro ficou pronto. Um bonito livro, com muitos
desenhos e pinturas.
O livro teve o ensaio crítico de Jacob Klintowicz e levou o
título de O inventário do cotidiano.
Foi lançado no ano de 2000, na Casa da Fazenda, no Morumbi,
em São Paulo.
Em setembro de 2002 Jurandi conheceu por acaso e muito
rapidamente, numa loja, na rua Padre José de Anchieta, quase
esquina da rua Antônio Bento, em Santo Amaro, um moço
chamado Cristóvão.
Por coincidência, Cristóvão, no Natal daquele ano, recebera
de presente, das mãos de Adozinda Kuhlmann, sua conhecida de
muitos anos e ilustre santamarense, o livro de Jurandi
Assis, O inventário do cotidiano.
Cristóvão se encantou com o livro. Adozinda disse que era
amiga de Jurandi, razão do presente de natal.
Quanta coincidência.
Cristóvão disse a ela que conhecera Jurandi havia pouco
tempo, e como ela o conhecia, perguntou-lhe onde ele morava.
Quando Adozinda respondeu, Cristóvão descobriu que Jurandi
morava muito perto. Todos moravam em Santo Amaro.
Dias depois Cristóvão tomou uma decisão, foi visitá-lo.
Numa manhã de janeiro, na sala da casa de Jurandi, os dois
passaram um bom tempo conversando.
Conversaram sobre muitas coisas como o encontro na loja, a
infância de Jurandi em Santa Maria da Vitória, o mestre
Guarany. Conversaram sobre São Paulo e sobre arte.
Conversaram também sobre o passado do bairro de Santo Amaro,
Santo Amaro do poeta Paulo Eiró, Santo Amaro do artista
Júlio Guerra, Santo Amaro do historiador
Edmundo Zenha. Um
Santo Amaro que já não existe mais. Hoje são somente
lembranças.
Ao termino do encontro, Jurandi e Cristóvão começaram a
ficar muito amigos e, na despedida, Cristóvão perguntou para
Jurandi o que ele ia fazer.
Jurandi respondeu:
– Vou pintar um quadro, e você?
Cristóvão respondeu:
– Vou escrever um livro.
– Então, quando estiver pronto você me mostra, disse Jurandi.
Tempos depois...
– Taí Jurandi. Taí criançada. Vocês acabaram de ler.
(*) – Guarany.
Francisco Biquiba Dy Lafuente Guarany,(1884 – 1985).
Natural da Vila de Santa Maria da Vitória. Foi artista
plástico e dentre outras artes destacou-se pelo pioneirismo
na escultura de carrancas. Foi contemporâneo e conhecido de
Jurandi Assis.
Obra registrada no Escritório de Direitos Autorais da
Biblioteca Nacional em 13 de dezembro de 2005 sob o nº
363.393
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