A arte regionalista de Jurandi Assis
Texto de
Tânia Galluzzi
Apoiado no
desenho e na composição, o artista
reconstrói a vida simples e culturalmente
rica do nordestino em meados do século
passado, resgatando caras lembranças de sua
infância.
As lavadeiras, o baile na
roça, o bumba-meu-boi, os vaqueiros, o
violeiro. Essas e muitas outras são as
lembranças de Jurandi Assis, as quais com
sensibilidade e muita cor transpõe para as
telas, cheias do calor da ensolarada Bahia.
A pintura de Jurandi Assis,
como descreve o crítico de arte Jacob
Klintowitz no livro sobre o artista, reúne
dois pólos. De um lado é dionístico. O
artista entrega-se totalmente às percepções,
permite emergir as memórias, as alegrias e
os cheiros que conheceu e ainda ama. É um
homem voltado para o prazer da atividade e
com o vigor de quem encontra na expressão os
melhores momentos que conhece. Por outro
lado, ele organiza geometricamente o espaço,
cuida das passagens cromáticas e planeja com
detalhes a visualidade da obra.
Nascido em 1939 em Santa
Maria da Vitória, BA, o assunto da pintura
de Jurandi Assis é a vida do interior
brasileiro da primeira metade do século
passado. É rural, interiorano, provinciano.
Mais do que tudo isso, afirma o crítico e
amigo pessoal do artista, é uma pintura que
se refere a um modo simples de viver e
existir. Não há dúvidas metafísicas nesta
manifestação artística, mas o inventário do
cotidiano. Os assuntos são os pássaros, o
carnaval, a natividade, a pesca. Uma
comunidade rural definida e estruturada para
uma existência básica.
Apesar de sua pintura não
permitir o vazio e de seu caráter
descritivo, ela é silenciosa, apoiada no
desenho e na composição.
Os personagens são
perfeitamente delimitados e o espaço é
severamente organizado.desta maneira, o
artista indica ao seu público que o seu
mundo é o do pensamento, do desejo, da
imaginação, da memória idealizada. Nada está
entregue ao acaso, tudo foi estudado à
exaustão. Mesmo que o planejamento das
obras, os estudos preparatórios,não sejam
exaustivos, a vivência imaginativa da ficção
é minuciosamente desenvolvida.
Jurandi descobriu o desenho
aos sete anos, quando uma bordadeira a
serviço de sua mãe deu-lhe alguns rabiscos
para copiar. O suporte para tal tentativa
foram as paredes da sala, que ficaram
cobertas pelos riscos tortuosos do menino.
Quando entrou para a escola já chegou com
fama de desenhista, e o apoio das
professoras, conta o artista, foi
fundamental pára que ele se tornasse cada
vez mais próximo dos lápis e do papel.
Da publicidade
à pintura
Aos 17 anos, Jurandi decidiu
partir para São Paulo a fim de viver a arte.
Porém, a vida na cidade grande era
infinitamente mais difícil do que ele
imaginava e seu primeiro emprego foi como
balconista em uma papelaria. Vendo na
publicidade uma saída, sempre que podia
mostrava seus desenhos para os clientes em
busca de uma chance. E ela apareceu na
figura de Oscar Costa, ilustrador,
publicitário e artista plástico, que passou
a receber Jurandi em seu estúdio, nos fins
de tarde, permitindo que ele aprimorasse
seus conhecimentos técnicos. Algum tempo
depois, Oscar Costa foi convidado para
trabalhar no departamento de arte da Avon,
levando Jurandi consigo. Na empresa, o
artista encontrou um ambiente favorável não
só para desenvolver a linguagem publicitária
como a pintura, uma vez que a companhia
abria espaço para pequenas exposições. Foi
numa dessas oportunidades que seu caminho
como pintor deu uma guinada.”Um dia levei à
Avon uma paisagem impressionista, que foi
analisada e considerada boa pelos colegas do
departamento. Um deles, contudo, disse que
dentro daquela escola eu nunca me
destacaria, aconselhando-me a desenvolver um
estilo mais pessoal, no qual pudesse
evidenciar os costumes e o folclore da minha
terra natal. Fiquei chocado num primeiro
momento, mas decidi apostar nessa direção,
esquecer as referências e dar asas à minha
imaginação”.
Já fora da Avon, mas mantendo
a atividade publicitária para seu sustento e
a artística por vocação, Jurandi fez a sua
primeira individual em 1974, na União
Cultural Brasil Estados Unidos, com a
apresentação do artista plástico Rebolo. A
partir daí o caminho estava definitivamente
aberto e diversas exposições se sucederam. A
mais recente aconteceu entre junho e julho
deste ano, na Casa da Fazenda, em São Paulo,
com a apresentação de 24 telas.
Em 1996, o artista passou a
dedicar-se apenas à pintura e à viabilização
de mais um sonho, a edição de um livro
autobiográfico.
Em setembro do ano passado, o
projeto foi concretizado com o lançamento da
obra, Jurandi Assis, pintor: O Inventário
do Cotidiano. Com o ensaio crítico de
Jacob Klintowitz e o projeto gráfico do
próprio Jurandi, o livro foi fotolitado e
impresso pela Laserprint, com tiragem de
1.500 exemplares, obra que já foi inclusive
incorporada ao currículo de alguns colégios,
como São Bento e o Visconde de Porto Seguro,
de Valinhos, interior de São Paulo.jurandi
se prepara, agora, para a edição de um
segundo livro, para o qual já tem 480
desenhos e 10 telas prontas.( junho de 2001)