Louvor ao carro de bois
Osório Dutra

Vagaroso, remoto, venerável
carro de bois da minha infância!
É também brasileiro
de quatrocentos anos.
De madeira de lei, não mudaste jamais:
és sempre o mesmo na descida ou na subida,
pachorrento, monótono, insistente,
tanto mais útil quanto mais modesto.

Dizem que vens de longe,
dos primeiros capítulos da história
que nossos povoadores escreveram,
e que nos fôste trazido
- presente régio, dádiva sem preço –
do fértil solo do Minho.

Fator outrora decisivo
do progresso rural,
és hoje uma relíquia do passado,
bendita herança do Brasil-Colonial,
cavando sulcos pela terra adentro,
desdenhoso da máquina que apita
e do motor que se consome,
sacrificado pelas próprias molas.

O que importa, meu velho amigo,
É que resistes,
Impávido e tenaz, a tudo que aparece!
Surgiu a diligência
e tiveste a intuição de não tomá-la a sério;
veio a estrada de ferro
e seguiste, moroso, o teu caminho;
impôs-se o reino do automóvel
e foi cantando por caatingas e picadas
que recebeste o perfídio inimigo;
triunfou nos ares o aeroplano
- glória de Santos Dumont -
e nem viste que houvera uma mudança
na geografia da circulação.

São relevantes e incontáveis ainda agora
os serviços que prestas,
conduzindo o café da lavoura aos terreiros,
cortando estradas e varando selvas.
Sabes de sobra que não terminou
a missão patriarcal que te foi dada
e continuas rústico e invencível,
o teu destino desbravador.

Correm os outros veículos....Tu,não!
Tens o complexo da velocidade...
Vais devagar; não tens pressa
e acabas sempre chegando

Destingues a distância a voz desse carreiro
que há tantos anos é teu companheiro
e te deixas puxar pela junta de coice
como se fosses qualquer coisa
que não tivesse a mínima importância.
    - Eia, ”Malhado”! Eia, “Bela-Vista”!
    - Que tem “Cabiúna”, que não quer andar?

Tenho por ti, carro de bois da minha infância,
A mais humana das ternuras!
Afundando no chão as tuas rodas de aço,
não respeitas a lama,
nem o relevo dos terrenos,
nem as complicações da natureza!
Não tens caprichos e não tens vaidades...
Vais devorando léguas e mais léguas
e assim transpões serras abruptas,
caminhos impraticáveis,
espigões, lodaçais, cafundós, atoleiros.
Tens uma alma de pássaro, e é cantando
de sol a sol que escreves o poema
da agricultura redentora do Brasil.

Como não compreender teu legendário orgulho?
Carro de bois que não canta,
diz com razão nossa gente
que não presta para nada.

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