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Santa Maria da
Vitória
[História
do Município de Santa Maria da Vitória]
[Casa de Cultura Antônio Lisboa de Morais - Biblioteca
Campesina]
[Folclore Musical de Santa Maria da Vitória]
[Carrancas de Guarany]
[Links]
[Personagens]
[Fotos]
História do Município de Santa Maria da Vitória
"A sede do atual município de Santa Maria da Vitória teve
origem nos meados do século XIX, num arraial formado na
margem esquerda do rio Corrente, em território então
pertencente ao município do Rio das Éguas, por pessoas que
para ali ocorreram com o fito da exploração do ouro nas
proximidades, dedicando-se depois à agricultura. Em 1840,
viam-se apenas poucas casas, circundadas de frondosas
gameleiras, em cuja sombra se abrigavam os que vinham fazer
transações comerciais. Era, naquela época, o porto
freqüentado constantemente por enjolos (canoas ligadas por
travessas de madeiras), que se entregavam ao comércio,
especialmente de rapaduras produzidas no Brejo do Espírito
Santo, que em 1887 era Distrito de Paz e do qual muito
dependia o arraial em formação. Em 1850, um artífice, vindo
da cidade da Barra do Rio Grande, construiu a primeira
embarcação para transporte de mercadorias e animais. Foram
construídas logo após outras embarcações e o arraial começou
a crescer com a chegada de grande número de pessoas para as
atividades agrícolas. A capela construída por seus
fundadores foi dedicada a Nossa Senhora das Vitórias,
ficando filiada à freguesia de Nossa Senhora da Glória do
Rio das Éguas. O arraial cresceu de importância e
transformou em porto de grande movimento comercial. Em 1880,
já um grande aglomerado humano para a época, foi o arraial
do Porto de Santa Maria da Vitória elevado a categoria de
Vila e criado o município de Santa Maria da Vitória, pela
Lei provincial número 1.960 de 08 de junho que elevou a
categoria de freguesia a capela existente, transferindo para
aí a sede da Vila e da freguesia do Rio das Éguas. Com isto
surgiu uma rivalidade entre as populações dos dois núcleos
(Santa Maria da Vitória e Rio das Éguas), o que entravou por
muito tempo o progresso de ambos os promissores centros, em
vista das mudanças de sedes de uma para outra localidade,
conforme situação política dominante. Só com o advento da
República cessou a rivalidade com a elevação de ambas
localidades a sede de Vilas. Foi o município de Santa Maria
da Vitória extinto pela resolução provincial número 2.558 de
14 de maio de 1886, que restaurou o município de Rio das
Éguas. Pela resolução provincial número 2.579 de 04 de maio
de 1888, foi restaurado, sendo extinto o do Rio das Éguas.
Pela Lei Estadual número 737 de 26 de junho de 1909, que
alterou o nome do município para Santa Maria, foi a Vila
elevada a categoria de cidade. Pelo Decreto Estadual número
8.060, de maio de 1932, a subprefeitura do Rio Alegre, então
pertencente ao município de Carinhanha, foi extinto,
passando o seu território a pertencer ao município de Santa
Maria. O Decreto Estadual número 8.292 de 03 de fevereiro de
1933, criou os Distritos de Inhaúmas e São Pedro do Açude.
Este último foi extinto pelo Decreto Estadual número 8.483
de 13 de junho de 1933. Na divisão territorial de 1933, o
município aparece formado pelos Distritos de Santa Maria
(sede), Rio Alegre, Inhaúmas e São Pedro do Açude. Essa
composição distrital é mantida nas divisões territoriais de
1936, 1937 e 1938, com alterações apenas nas designações dos
Distritos de Rio Alegre e São Pedro do Açude, cujos nomes
foram simplificados para Alegre e São Pedro. Pelo Decreto
Estadual número 141 de 31 de dezembro de 1943, parte do
Distrito de Inhaúmas foi anexado ao município de Correntina
(ex-Rio das Éguas) e o município teve o seu nome mudado para
Santa Maria da Vitória. Por esse mesmo Decreto Lei, os
Distritos de São Pedro e Alegre tiveram os nomes mudados
para, respectivamente, Açudina e Coribe. A composição
distrital do município, de acordo com a Lei Estadual número
628 de 30 de dezembro de 1953, é a seguinte: Santa Maria da
Vitória, Açudina, Coribe e Inhaúmas."
Fonte:
Sites da internet e com a colaboração de Joaquim Lisboa Neto
da Casa da Cultura Antônio Lisboa de Morais de Santa Maria
da Vitória - BA
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Topo ---
Biblioteca Campesina completa 27 anos e faz parte da
história dos movimentos sociais.
Joaquim Lisboa Neto
"A história das lutas camponesas conta com um acervo
literário de extrema importância no coração do Vale do Rio
Corrente, na Bahia. Situada no município baiano de Santa
Maria da Vitória, a Biblioteca Campesina completou 27 anos
de existência no dia 15 de fevereiro deste ano e sua sede,
que não passava de um cômodo medindo um metro por dois,
agora é uma casa de três ambientes, recheada de livros
relacionados com o dia-a-dia de seus leitores - agricultores
familiares, assentados e moradores das zonas periféricas da
cidade.
Segundo o curador da biblioteca, Joaquim Lisboa Neto, são
mais de vinte mil livros - o maior acervo sobre a temática
rural -, uma videoteca com mais de quatrocentos filmes [VHS],
e um público mensal de mais de mil pessoas em períodos
letivos.
A idéia de criar uma biblioteca independente - ou
autogestionada - surgiu no início de janeiro de 1980, em uma
reunião de ativistas que editavam o jornal O Posseiro com o
sociólogo, professor da Universidade Federal de Rondônia
(Unir) e santa-mariense Clodomir Santos de Morais, então
conselheiro técnico da Organização Internacional do Trabalho
(OIT).
Joaquim explica que o professor Clodomir Morais tinha vindo
a Santa Maria da Vitória para rever amigos e parentes e
visitar o túmulo de seus pais, falecidos quando ele estava
exilado por conta da ditadura militar de 1964.
"Aproximadamente um mês após o encontro, inaugurávamos a
Biblioteca Campesina, num espaço de 2 metros por 1, três
caixotes de maçã, que serviam como estantes, e uma tosca e
diminuta mesa, que estava à espera do caminhão do lixo",
conta Joaquim, que também é responsável pela Casa de Cultura
Antônio Lisboa de Morais, fundada em março de 1982 e que
abriga a Campesina.
Enquanto O Posseiro incitava a fúria dos poderosos da região
- vários deles, segundo Joaquim, eram grileiros -, a
Biblioteca Campesina despertava o interesse pela leitura nos
moradores mais pobres. "Posso dizer que 90% dos nossos
leitores e pesquisadores são pessoas das classes menos
favorecidas de Santa Maria da Vitória", afirma o curador.
Hoje a biblioteca já conta com títulos bem diversificados e
com "filhas" espalhadas em Mocambo, zona rural de Santa
Maria da Vitória, e nas cidades de Joaquim Nabuco (PE),
Cubati (PB) e Itaquaquecetuba (SP). São locais que recebem
apoio da Campesina, com livros e a logística da autogestão."
Texto
adaptado da edição nº 161 de 18 a 24 de novembro de 2002 do
NEAD
"CLODOMIR MORAIS: UMA TRAJETÓRIA DE LUTA EM FAVOR DOS
EXCLUÍDOS"
Por Joaquim Lisboa Neto*
Nasceu em Santa Maria da Vitória no dia 30 de setembro de 1928, onde iniciou seus estudos no curso elementar.
Fez os cursos ginasial e colegial em São Paulo, onde também trabalhou na agricultura e na indústria de montagem de automóveis Ford, e iniciou-se no jornalismo trabalhando nos diários A HORA e O SPORT. Iniciou-se, também, na atividade política de esquerda, juntamente com o pintor Luis Enjorras Ventura, que mais tarde se transformou num famoso muralista da UNESCO; o educador Dario de Lorenzo, que foi vereador da Paulicéia e que motivou o deputado estadual Abreu Sodré para, a exemplo da Missão Econômico-Parlamentar e Cultural criada por Clodomir Morais na Assembléia Legislativa de Pernambuco, levar, na mesma época, a Moscou idêntica missão; Radah Abramo, mais tarde a socióloga da arte; e Fernando Henrique Cardoso, que, posteriormente, chegou a presidente da República.
Em 1950, antes de chegar a santa Maria da Vitória, Clodomir Morais trancou a matrícula do curso de Ciências Sociais que fazia na Faculdade de Sociologia da USP (Rua Maria Antônia, Higienópolis).
De Santa Maria da Vitória, seguiu para Salvador, para organizar o exitoso Congresso de Estudante Secundaristas do Rio São Francisco, realizado em Juazeiro (BA), a fim de impor ao governo Otávio Mangabeira a criação de ginásios na região sãofranciscana. Porém, antes, criou a Sociedade de Trabalhadores de Santa Maria da Vitória (STSMV), inspirada pelo saudoso Manuel Cruz, e que teve como dirigente o escultor Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany.
Depois de vitorioso o Congresso de Estudantes Secundaristas, Clodomir Morais fundou e dirigiu, em Salvador, em 1951, o semanário CRÍTICA, o único jornal de oposição ao governo de Régis Pacheco. Este jornal veio preencher a lacuna do diário O MOMENTO, do partido comunista Brasileiro (PCB), que foi assaltado pela polícia a qual também destruiu as oficinas do jornal.
Daí seguiu para o Recife, onde formou-se em Direito pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), e foi repórter dos jornais Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio, Diário da Noite, “Jornal Pequeno”, Folha da Manhã, Folha Vespertina e Correio do Povo, além das Rádios Clube e Olinda. Nas décadas de 1950/60, período em que morou na capital pernambucana, foi assessor das Ligas Camponesas e deputado estadual eleito pelo PC de Luiz Carlos Prestes, na legenda do PTB de Getúlio Vargas, de 1955 a 1959.
Três ações exitosas marcaram o mandato de Clodomir Morais na Assembléia Legislativa de Pernambuco, todas elas objetivando a expansão do emprego no Nordeste:
a – Organização e realização do Congresso de Salvação do Nordeste, que deu, logo depois, no surgimento da SUDENE. Deste congresso participaram 1.200 delegados de diferentes classes sociais do Nordeste que, durante uma semana, discutiram tête-à-tête os problemas socioeconômicos dos 8 estados da região.
b – Criou e dirigiu uma ampla delegação parlamentar de Pernambuco e Paraíba aos paises do Leste europeu e outros paises do ocidente europeu a fim de forçar o estabelecimento de relações culturais e comerciais com a União Soviética, Tchecoeslováquia, Alemanha Oriental, Alemanha Federal e demais paises socialistas da Europa e da Ásia, as quais foram possibilitadas nos seis meses do curto governo de Jânio Quadros.
c – Fez a Assembléia Legislativa de Pernambuco aprovar, por unanimidade, o seu projeto de criação do Banco de Desenvolvimento de Pernambuco (BANDEPE). Em tom de brincadeira, Clodomir Morais sempre diz: “Eu sou um lascado em matéria de dinheiro, porém fundei um dos grandes bancos do país.” O papel do BANDEPE sempre foi financiar empreendimentos que possam gerar milhares de postos de trabalho e renda.
Teve os direitos políticos cassados por dez anos e, após dois sofridos anos de prisão em 1962/65, amargou também um exílio de quinze anos no exterior. Através do ato Institucional nº 1, na lista dos cem primeiros cassados pelos militares golpistas, que assumiram o poder em 1964, ocupou o honroso 12º lugar. Exilou-se no Chile, onde atuou no Instituto de Capacitação e Pesquisa para a Reforma Agrária (ICIRA, sigla em espanhol), e logo após, ingressou na ONU (Organização das Nações Unidas), como conselheiro Regional para a América Latina em assuntos de Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural.
Desempenhou suas atividades com tamanha competência que gerou convites de várias entidades internacionais. Trabalhou para várias agências da ONU, a saber: OIT (Organização Internacional do Trabalho), PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), FAO (Agência das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação). UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre comércio e Desenvolvimento), ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) e CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe).
Elaborou e dirigiu projetos de Capacitação em Organização em Honduras, Panamá, Costa Rica, Moçambique, Guiné-Bissau, México, Nicarágua e Portugal, e foi consultor dessas agências para missões técnicas na Europa, América Latina, África e Ásia, nas questões de organização camponesa. Clodomir Morais foi professor residente das Universidades de Rostock (Alemanha), Autônoma de Chapingo-UACh (México) e de Brasília (UnB), onde fundou o Instituto de Apoio Técnico aos Países do Terceiro Mundo (IATTERMUND), instituição que tem como objetivo principal gerar emprego e renda, uma vez que o desemprego constitui o problema mais grave dos países em desenvolvimento. O IATTERMUND tem apoiado o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na formação de quadros de nível de base e nível médio, com os TDC- Técnicos em Desenvolvimento Cooperativo.
Criou a Metodologia de Capacitação Massiva Geradora de Emprego e Renda, aplicada em vários continentes (Américas, Europa, África e Ásia), que resultou na criação de milhares de empresas autogestionárias.
As primeiras edições em português da sua cartilha Elementos de Teoria da Organização foram feitas pelo Núcleo de Educação popular 13 de Maio – NEP e pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), através do Caderno de Formação nº 11, cartilha esta que, ao alcançar 1 milhão de exemplares em 34 paises e em 7 idiomas e dialetos, a Câmara dos Deputados do México fez uma edição especial para a criação do PRONAGER (Programa Nacional de Geração de Emprego e Renda) mexicano.
Foi professor conferencista nas Universidades de Berlim (Alemanha), Wisconsin (Estados Unidos), Autônoma do México, em todas as Universidades Autônomas dos paises da América Central, Panamá, Colômbia e Venezuela, na Universidade “Agostinho Neto” de Angola, “Eduardo Mondlane” de Moçambique, Institutos de Pesquisas Socioeconômicas de Harare, Zimbábue, e de Genebra, Suíça. Nos anos em que esteve na Alemanha Oriental, fez o curso de Doutorado em Sociologia da Organização.
Tem inúmeros livros publicados, alguns deles traduzidos em vários idiomas. Destacamos Dicionário de Reforma Agrária América Latina, Queda de uma Oligarquia, o Reencontrado Elo Perdido das Reformas Agrárias (prefaciados, respectivamente, por Josué de Castro, Barbosa Lima Sobrinho e Osny Duarte Pereira), Elementos de Teoria da Organização (com mais de 200 edições na Europa, África, América e Ásia), Teoria da Organização Autogestionária, A Marcha dos Camponeses Rumo à Cidade, Contos Verossímeis (volumes 1 e 2.) e Historia das Ligas Camponesas do Brasil. O seu primeiro livro publicado, O Amor e a Sociedade, reuniu em cem páginas toda a sua produção de poesias líricas e poemas de protesto e de atuação social. O êxito que teve esta estréia, em 1950 (quando tinha apenas 22 anos), lhe valeu a cadeira de Frei Francisco de Monte Alverne, na Academia de Letras da Cidade de São Paulo, criada nos anos 1930 para albergar os intelectuais menores não ingressados na titular Academia Paulista de Letras.
*Joaquim Lisboa Neto é Coordenador e fundador da Casa da Cultura Antônio Lisboa de Morais/ Biblioteca Campesina, criada em 20 de fevereiro de 1980.
Casa de Cultura Antonio Lisboa de Morais
Rua Cel. Antonio Barbosa, 53
Santa Maria da Vitória - BA
CEP 47640-00
Telefone - (77) 3483-2328
e-mails -
casacultura.alm@bol.com.br e
casadaculturaalm@hotmail.com
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Folclore Musical de Santa Maria da Vitória
Dança de São Gonçalo
Época: Meados do século XX
As festas em louvor a São Gonçalo do Amarante eram
entremeadas de cerimônias coreográfico-religiosas diante da
imagem do santo. A festa ocorria em comemoração a uma graça
alcançada. Os participantes,reunidos em duas filas, uma de
homens e outra de mulheres, cantavam e dançavam. Cada fila
era encabeçada por um "guia". As moças vestiam-se de branco
e carregavam arcos enfeitados com folhagens e flores de
papel branco, reverenciando com exagerados meneios a imagem
do santo. Como parte integrante da cerimônia, determinado
grupo de moças improvisava uma "Roda de São Gonçalo", em que
se cantavam quadras de invocação ao santo casamenteiro, tudo
revestido de muito respeito e veneração. As cantorias eram
acompanhadas de um conjunto instrumental composto de viola,
pandeiro e tambor.
Fonte: Musica Folclórica do Médio São Francisco (Vol.I),
páginas 207 e 207.
Autor:Osvaldo de Souza
Publicação do Ministério da Educação e Cultura
Conselho Federal de Cultura Rio de Janeiro, 1979
Título: "Roda"
Na hora de Deus, amem,
Na hora de deus, amem - ô!
Padre, Filho, Esp'rito Santo. (bis)
São Gonçalo de Amarante,
São Gonçalo de Amarante - ô!
não é como os outros santo. (bis)
São Gonçalo de Amarante,
São Gonçalo de Amarante - ô!
não é como os outros santo; (bis)
todo santo qué qu'eu reze,
todo santo qué qu'eu reze - ô!
São Gonçalo qué qu'eu cante. (bis)
Ê-vem o carro cantando,
Ê-vem o carro cantando - ô!
Vem cheio de cravo e rosa; (bis)
São Gonçalo vem no meio,
São Gonçalo vem no meio - ô!
Escuiêndo a mais cheirosa. (bis)
São Gonçalo de Amarante,
São Gonçalo de Amarante - ô!
casamenteiro das velhas, (bis)
porque não casai as moças,
porque não casai as moças - ô!
Que mal lhe fizeram elas. (bis)
Ora, viva e reviva! (bis)
ô!
Viva São Gonçalo, viva! (bis)
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FRANCISCO BIQUIBA DY LAFUENTE GUARANY:
Nasceu em 2 de abril de 1882 em Santa Maria da Vitória na
Bahia e faleceu na mesma cidade em 1985. Foi ativo na
produção de carrancas desde os seus 20 anos de idade.
Jurandi Assis teve a oportunidade de conhecê-lo. Guarany
faleceu em 1985 com a idade de 103 anos.
Sempre trabalhou
sozinho, como marceneiro e carpinteiro. Fazia de tudo:
barris para transporte de água, dornas para guardar cachaça,
móveis, madeiramento para telhados, porém sua fama adveio
mesmo foi da produção das carrancas, que constituem um
importante capítulo na arte popular brasileira.
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Links:
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Personagens
Ilustra o texto o quadro “O Vapor”,
do artista plástico Jurandi Assis –
www.jurandiassis.com - de
Santa Maria da Vitória. Travessia do rio é imagem
recorrente na obra de Osório Alves de Castro.

Osório Alves de
Castro
Recriação do linguajar regional, em Porto
Calendário, encantou o mineiro Guimarães Rosa.
“Barranqueiro, autodidata, alfaiate de profissão,
Osório Alves de Castro publicou apenas um livro em
vida. Experimentou solidão, glória e esquecimento.
Mas escreveu até próximo do fim.”
A voz e a costura de Osório Alves de Castro,
narrador barranqueiro.
Carlos Barbosa
O alfaiate estendeu o rolo de tecido do São
Francisco sobre a mesa de trabalho. Mediu e cortou.
Riscou na peça seus riachos e rios tributários,
fazendas, povoações, eitos e capoeiras, fez cortes
precisos da história e do perfil do seu povo;
alinhavou, tendo em mente o preparo de um traje de
gala incomum; recolheu e guardou na prateleira o
rolo e as sobras com cuidados de mãe que tem mais
filhos a vestir; e, ali, assentado em sua
Alfaiataria Rex, costurou com engenho particular
aquelas peças memoriais em um indiscutível monumento
da literatura brasileira, Porto Calendário: “Firmo
desavença devez por todas. Comigo não, minhocão.
Tenho represadas na cabeça vozes e vozes
confirmando, crescendo aqui no pensamento, como
lagamá nas águas. Um dia nem queria saber...e da sua
imaginação atormentada, o espetáculo soltava-se nos
desabafos marcados pelo delírio, gesticulando e
bradando.”
Ali pulsava e ainda pulsa, a fala viva de um povo
desvalido, que o alfaiate Osório Alves de Castro
deixara para trás no sertão baiano do São Francisco,
antes de se firmar em Marília, interior de São
Paulo. Entre um arremate e outro, o alfaiate remoia
suas vivência e conhecença em anotações feitas em
papeluchos retirados da gaveta. Causos que enredava
seus romances, nos quais a poesia sempre
ponteou..”Sim senhor lhe digo: quando chega o ano
novo as canelas-de-velho, no cocuruto dos altos, são
como tigelas de louça branca. E vão como uma
contagem, caminhando no tempo, amarelado, encardindo
até sumir. É só olhar”.
Construído em duas partes, o romance sumariza em
linguagem preciosa de vivente da terra e bebedor das
águas do velho rio, o distorcido mundo comum, a
movimentação do povo de Santa Maria da Vitória,
banda de lá do rio São Francisco, porto do rio
Corrente, nesta nossa antiga Bahia, às portas do
século XX. “A barra do dia já clareava o vulto das
benfeitorias. Pesadas, as embarcações com os ventres
arredondados, pareciam grandes peixes mortos
estirados na ribanceira.”
PERPLEXIDADES
As histórias se sucedem, uma puxando a outra, tendo
o lenhador Pedro Voluntário-da-Pátria como guia
sensível e cru. Um homem desprovido de bens, até
mesmo de um nome de família. Ganhou o seu no
alistamento para a guerra do Paraguai, onde lutou e
de onde voltou repleto de cicatrizes e mínimas
glórias. Pai de muitos filhos esfaimados, Pedro
Voluntário arrasta suas dores e perplexidades aos
brados: “porque tenho afirmação: vem dos antigos sem
rodeios”. A mesma afirmação que fez de Osório o
escritor da saga ribeirinha.
Dos feixes de lenha pra vender na rua à construção
da grande barca “Século Vinte”, acompanha-se também
com Pedro as tramas políticas e jurídicas dos
poderosos da região e conhece razões e pecados de
personagens únicos como João Imaginário, Bê Martins
e Tia Gatona que abriga e prepara jovens
desamparados para a migração, coisa que os grandes
fazendeiros tentam impedir por considerarem
“fujança”. “O sertão é como a onça. Pode amansar,
não fazer conta das unhas e das presas e viver como
um gato de casa ou cachorro de colo. Mas se se
espanta!”.
Preciso em sua crítica social, Osório veste de
“Liberdade” a filha de Pedro Voluntário, Aninha, e a
faz desfilar pelas ruas da cidade em festa cívica,
para depois ser estuprada no escuro da noite pelos
filhos dos coronéis. E nos miolos do velho Pedro:
“Gosto de falar consigo, machado, olho a olho. Veja
só: velho como eu. O esmeril é como a fome; nos rói
e prostra. Você é meu amigo. Lustro no seu aço luz
da olhada dos meus. Vou lhe falar: quando acabou a
guerra fiquei só. Disseram: deixe a espingarda e vai
para sua terra. Antes o batalhão passou diante do
Imperador Pedro II, lhe juro: o riso da princesa não
era tão inocente como o de Aninha, minha filha”.
Osório Alves de Castro migrou para o sul do País nem
bem completara 21 anos, mas carregou consigo aquele
rolo de tecido sanfranciscano, verdadeira
enciclopédia de vozes e quadros existenciais. Rolo
de tecido que baixou da prateleira mais vezes para
escrever dois romances: Maria fecha a porta prau
boi não te pegar (Editora Símbolo, 1978)
dedicado à bravura da mulher barranqueira, encarnada
em Maria e sua inusitada trajetória: oleira,
candidata a conselheirista, santificada na tragédia
pessoal em Juazeiro e líder de uma revolucionária
comunidade ao retornar à terra natal; e Bahiano
Tietê (EGBA, 1990), que retoma personagens do
primeiro livro e aborda o drama do baiano que migra
para o sul do País. Neste livro, Gey Espinheira viu
condição de “romance de identidade nacional, o
encontro de um povo na imensidão e no tempo”.
PORTO E ROSA
Porto Calendário estava pronto no início dos
anos 1950. Seus originais foram reescritos em várias
ocasiões por conta das apreensões que a polícia
fazia, na alfaiataria de Osório, de material
considerado subversivo sempre que o arrastava para a
delegacia. Osório era comunista militante. E sua
alfaiataria era ponto de encontro e prosa tanto de
escritores quanto de membros do Partido Comunista. É
possível apontar a leitura de Grande Sertão Veredas,
de Guimarães Rosa, lançado em 1956, como provável
vetor que impulsionou o alfaiate a se tornar público
escritor. Osório escreveu uma carta, em março de
1957, a J.Herculano Pires tratando do livro de
Guimarães Rosa. Essa carta foi publicada na edição
de novembro daquele ano na revista Diálogo.
Na carta, Osório disse ao amigo: “O São Francisco é
uma liberdade. Agora que o mistério vai se
desbulhando, e entrega as suas reservas à linguagem
de um romancista, ficamos maravilhados ante esta
peleja de medir o universo. (...) Nasci na mesma
região, ouvi dentro de minha casa, a subversão da
semântica fazendo as conversas como se cavaca nos
troncos dos cedros e dos tamboris, o oco das canoas.
Decifrando o destino e ranzinzando contra a
tristeza, nossa imaginação esparrama-se na terra
como as águas da enchente. (...) Riobaldo foi como o
rio na enchente. Avançou, tomou as várzeas, engoliu
baixadas, rodeou os morros, até que as chuvas
cessaram nas cabeceiras. Os marimbus esvaziaram-se
na liquência dos buritis. No meio da terra enxuta da
lama seca e do mato ralo, Riobaldo virou lagoa.” E
anunciou ao encerrar: “Como você sabe, venho há
vinte anos, com minha incapacidade, procurando
reunir, a meu modo, o que sei das coisas de lá.
Senti uma ajuda agora com a coragem e a inteligência
de J.Guimarães Rosa”.
Guimarães Rosa tomou conhecimento da carta de Osório
antes de sua publicação. Em agosto de 1957, em carta
a Paulo Dantas, não deixou por menos;”A espantosa, a
estouradora carta, mensagem dos cem mil cavaleiros:
aquilo é o sertão do São Francisco, nosso, inteiro,
despejando gente célebre, e lugares enrolados, tudo
com os respectivos foguetes, tiros, relinchos de
cavalos: a carta de Osório Alves de Castro”. E ao
próprio Osório endereçou apelos, em carta de
fevereiro de 1958: “Espero seu livro, o Porto
Calendário. Há de ser irrupção e benção,
tumulto fecundo, rajada de chuva”.
Guimarães Rosa registrou em carta a condição humana
que os unia, tratando Osório por “companheiro
proclamado, amigo ‘prévio’...mano-velho
sãofranciscaníssimo, barranqueiro” J.Herculano Pires
destrinçou bem o vínculo entre eles: “Osório sai de
Guimarães, não porque aprendeu dele, mas porque
atravessa as suas páginas, vindo de bem antes
delas”. Porto Calendário veio a lume em 1961,
pela Livraria Francisco Alves, e recebeu o prêmio
Jabuti de melhor romance do ano. Rendeu também ao
autor uma curta notoriedade: aparições na televisão,
palestras e até viagem a Moscou.
Eliana Pestana, em sua dissertação de mestrado
(Unesp/Assis/2004) sobre biografia e fortuna crítica
do escritor baiano, que alimentou bem esse texto,
revela que Osório deixou prontos dois originais de
romances, escritos em seus últimos anos de vida:
Nhonhô Pedreira e A cidade do velho.
Nascido oficialmente em 17 de abril de 1901 – teria
chegado ao mundo em 1898 – Osório morreu em 9 de
dezembro de 1978.
A voz de Osório Alves de Castro é como a água do
velho Chico: por mais que tentem impedir, sempre
reponta dizendo: “presente”. Eu deveria ter lido no
ginásio, lá em Ibotirama, ou no colégio, aqui em
Salvador, o Porto Calendário. Mas somente
provei da prosa osoriana dois anos atrás, bem depois
de ter lançado meu primeiro romance. Mais que
espantoso, isso é um absurdo engendrado pelo
silêncio que cobre o sertão baiano em todos os
círculos do poder. O sertão existe, está dentro de
nós, mas depois que calaram Conselheiro, Horácio de
Matos, Lampião e o apito a vapor, tem estado quieto
feito onça amansada. Mas o sertão continua lá, onde
sempre esteve, a corroer nossa alma.
CÓDIGOS
Os romances de Osório Alves de castro expõem o drama
existencial do sertão baiano do São Francisco com
uma linguagem rica, encantatória e prenhe de belezas
terríveis. São livros destinados a quem busca
contato com os códigos genéticos de nossa história
campesina e de sua linguagem única, preservada no
tempo por séculos de isolamento; e a quem busca
enriquecer e maravilhar seu mundo interior com
episódios arrebatadores da verdadeira história da
nossa gente. Não é possível encontrá-los em
livrarias. Mas em sua terra natal, Santa Maria da
Vitória, a memória de Osório e sua obra tem um
defensor ferrenho em Joaquim Lisboa Neto,
responsável pela Casa da Cultura Antônio Lisboa de
Morais (casacultura.alm@bol.com.br).
Lá é possível encontrar – ao lado de fotografias e
documentos – exemplares dos romances de Osório para
comprar, inclusive por via postal.
Barranqueiro, autodidata, alfaiate de profissão,
Osório Alves de Castro publicou apenas um livro em
vida. Experimentou solidão, glória e esquecimento.
Mas escreveu até próximo do fim. Penso que o
espírito que sempre o moveu, foi sintetizado por
Osório ao criar a etiqueta da sua alfaiataria, com
versos , em italiano, de D’Annúnzio, traduzidos
como: “tudo ambicionei/ e tudo tentei/ aquilo que
não consegui/ eu sonhei”.
Carlos Barbosa é jornalista e escritor, autor do
romance A dama do Velho Chico, publicado pela
“Bom Texto Editora” em 2002.
Matéria publicada em 20/10/2007 no jornal “A Tarde”
– caderno Cultural – Editor interino: Ronaldo
Oliveira - Salvador - Bahia
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Santa Maria - 1960 |
Santa Maria - 1950 |
Santa Maria
Rua da Panificadora - 1950 |
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Santa Maria - 1960 |
Santa Maria
Prefeitura - 1940 |
Guarany - 1970 |
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Santa Maria
Praça do Jacaré - 1930 |
Santa Maria - 1940 |
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