Santa Maria da Vitória

[História do Município de Santa Maria da Vitória]
[Casa de Cultura Antônio Lisboa de Morais - Biblioteca Campesina]
[Folclore Musical de Santa Maria da Vitória]
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História do Município de Santa Maria da Vitória

"A sede do atual município de Santa Maria da Vitória teve origem nos meados do século XIX, num arraial formado na margem esquerda do rio Corrente, em território então pertencente ao município do Rio das Éguas, por pessoas que para ali ocorreram com o fito da exploração do ouro nas proximidades, dedicando-se depois à agricultura. Em 1840, viam-se apenas poucas casas, circundadas de frondosas gameleiras, em cuja sombra se abrigavam os que vinham fazer transações comerciais. Era, naquela época, o porto freqüentado constantemente por enjolos (canoas ligadas por travessas de madeiras), que se entregavam ao comércio, especialmente de rapaduras produzidas no Brejo do Espírito Santo, que em 1887 era Distrito de Paz e do qual muito dependia o arraial em formação. Em 1850, um artífice, vindo da cidade da Barra do Rio Grande, construiu a primeira embarcação para transporte de mercadorias e animais. Foram construídas logo após outras embarcações e o arraial começou a crescer com a chegada de grande número de pessoas para as atividades agrícolas. A capela construída por seus fundadores foi dedicada a Nossa Senhora das Vitórias, ficando filiada à freguesia de Nossa Senhora da Glória do Rio das Éguas. O arraial cresceu de importância e transformou em porto de grande movimento comercial. Em 1880, já um grande aglomerado humano para a época, foi o arraial do Porto de Santa Maria da Vitória elevado a categoria de Vila e criado o município de Santa Maria da Vitória, pela Lei provincial número 1.960 de 08 de junho que elevou a categoria de freguesia a capela existente, transferindo para aí a sede da Vila e da freguesia do Rio das Éguas. Com isto surgiu uma rivalidade entre as populações dos dois núcleos (Santa Maria da Vitória e Rio das Éguas), o que entravou por muito tempo o progresso de ambos os promissores centros, em vista das mudanças de sedes de uma para outra localidade, conforme situação política dominante. Só com o advento da República cessou a rivalidade com a elevação de ambas localidades a sede de Vilas. Foi o município de Santa Maria da Vitória extinto pela resolução provincial número 2.558 de 14 de maio de 1886, que restaurou o município de Rio das Éguas. Pela resolução provincial número 2.579 de 04 de maio de 1888, foi restaurado, sendo extinto o do Rio das Éguas. Pela Lei Estadual número 737 de 26 de junho de 1909, que alterou o nome do município para Santa Maria, foi a Vila elevada a categoria de cidade. Pelo Decreto Estadual número 8.060, de maio de 1932, a subprefeitura do Rio Alegre, então pertencente ao município de Carinhanha, foi extinto, passando o seu território a pertencer ao município de Santa Maria. O Decreto Estadual número 8.292 de 03 de fevereiro de 1933, criou os Distritos de Inhaúmas e São Pedro do Açude. Este último foi extinto pelo Decreto Estadual número 8.483 de 13 de junho de 1933. Na divisão territorial de 1933, o município aparece formado pelos Distritos de Santa Maria (sede), Rio Alegre, Inhaúmas e São Pedro do Açude. Essa composição distrital é mantida nas divisões territoriais de 1936, 1937 e 1938, com alterações apenas nas designações dos Distritos de Rio Alegre e São Pedro do Açude, cujos nomes foram simplificados para Alegre e São Pedro. Pelo Decreto Estadual número 141 de 31 de dezembro de 1943, parte do Distrito de Inhaúmas foi anexado ao município de Correntina (ex-Rio das Éguas) e o município teve o seu nome mudado para Santa Maria da Vitória. Por esse mesmo Decreto Lei, os Distritos de São Pedro e Alegre tiveram os nomes mudados para, respectivamente, Açudina e Coribe. A composição distrital do município, de acordo com a Lei Estadual número 628 de 30 de dezembro de 1953, é a seguinte: Santa Maria da Vitória, Açudina, Coribe e Inhaúmas."

Fonte: Sites da internet e com a colaboração de Joaquim Lisboa Neto da Casa da Cultura Antônio Lisboa de Morais de Santa Maria da Vitória - BA

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Biblioteca Campesina completa 27 anos e faz parte da
história dos movimentos sociais.

Joaquim Lisboa Neto

"A história das lutas camponesas conta com um acervo literário de extrema importância no coração do Vale do Rio Corrente, na Bahia. Situada no município baiano de Santa Maria da Vitória, a Biblioteca Campesina completou 27 anos de existência no dia 15 de fevereiro deste ano e sua sede, que não passava de um cômodo medindo um metro por dois, agora é uma casa de três ambientes, recheada de livros relacionados com o dia-a-dia de seus leitores - agricultores familiares, assentados e moradores das zonas periféricas da cidade.
Segundo o curador da biblioteca, Joaquim Lisboa Neto, são mais de vinte mil livros - o maior acervo sobre a temática rural -, uma videoteca com mais de quatrocentos filmes [VHS], e um público mensal de mais de mil pessoas em períodos letivos.
A idéia de criar uma biblioteca independente - ou autogestionada - surgiu no início de janeiro de 1980, em uma reunião de ativistas que editavam o jornal O Posseiro com o sociólogo, professor da Universidade Federal de Rondônia (Unir) e santa-mariense Clodomir Santos de Morais, então conselheiro técnico da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Joaquim explica que o professor Clodomir Morais tinha vindo a Santa Maria da Vitória para rever amigos e parentes e visitar o túmulo de seus pais, falecidos quando ele estava exilado por conta da ditadura militar de 1964. "Aproximadamente um mês após o encontro, inaugurávamos a Biblioteca Campesina, num espaço de 2 metros por 1, três caixotes de maçã, que serviam como estantes, e uma tosca e diminuta mesa, que estava à espera do caminhão do lixo", conta Joaquim, que também é responsável pela Casa de Cultura Antônio Lisboa de Morais, fundada em março de 1982 e que abriga a Campesina.
Enquanto O Posseiro incitava a fúria dos poderosos da região - vários deles, segundo Joaquim, eram grileiros -, a Biblioteca Campesina despertava o interesse pela leitura nos moradores mais pobres. "Posso dizer que 90% dos nossos leitores e pesquisadores são pessoas das classes menos favorecidas de Santa Maria da Vitória", afirma o curador.
Hoje a biblioteca já conta com títulos bem diversificados e com "filhas" espalhadas em Mocambo, zona rural de Santa Maria da Vitória, e nas cidades de Joaquim Nabuco (PE), Cubati (PB) e Itaquaquecetuba (SP). São locais que recebem apoio da Campesina, com livros e a logística da autogestão."

Texto adaptado da edição nº 161 de 18 a 24 de novembro de 2002 do NEAD

"CLODOMIR MORAIS: UMA TRAJETÓRIA DE LUTA EM FAVOR DOS EXCLUÍDOS"
Por Joaquim Lisboa Neto*

Nasceu em Santa Maria da Vitória no dia 30 de setembro de 1928, onde iniciou seus estudos no curso elementar.
Fez os cursos ginasial e colegial em São Paulo, onde também trabalhou na agricultura e na indústria de montagem de automóveis Ford, e iniciou-se no jornalismo trabalhando nos diários A HORA e O SPORT. Iniciou-se, também, na atividade política de esquerda, juntamente com o pintor Luis Enjorras Ventura, que mais tarde se transformou num famoso muralista da UNESCO; o educador Dario de Lorenzo, que foi vereador da Paulicéia e que motivou o deputado estadual Abreu Sodré para, a exemplo da Missão Econômico-Parlamentar e Cultural criada por Clodomir Morais na Assembléia Legislativa de Pernambuco, levar, na mesma época, a Moscou idêntica missão; Radah Abramo, mais tarde a socióloga da arte; e Fernando Henrique Cardoso, que, posteriormente, chegou a presidente da República.
Em 1950, antes de chegar a santa Maria da Vitória, Clodomir Morais trancou a matrícula do curso de Ciências Sociais que fazia na Faculdade de Sociologia da USP (Rua Maria Antônia, Higienópolis).
De Santa Maria da Vitória, seguiu para Salvador, para organizar o exitoso Congresso de Estudante Secundaristas do Rio São Francisco, realizado em Juazeiro (BA), a fim de impor ao governo Otávio Mangabeira a criação de ginásios na região sãofranciscana. Porém, antes, criou a Sociedade de Trabalhadores de Santa Maria da Vitória (STSMV), inspirada pelo saudoso Manuel Cruz, e que teve como dirigente o escultor Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany.
Depois de vitorioso o Congresso de Estudantes Secundaristas, Clodomir Morais fundou e dirigiu, em Salvador, em 1951, o semanário CRÍTICA, o único jornal de oposição ao governo de Régis Pacheco. Este jornal veio preencher a lacuna do diário O MOMENTO, do partido comunista Brasileiro (PCB), que foi assaltado pela polícia a qual também destruiu as oficinas do jornal.
Daí seguiu para o Recife, onde formou-se em Direito pela UFPE (Universidade Federal de Pernambuco), e foi repórter dos jornais Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio, Diário da Noite, “Jornal Pequeno”, Folha da Manhã, Folha Vespertina e Correio do Povo, além das Rádios Clube e Olinda. Nas décadas de 1950/60, período em que morou na capital pernambucana, foi assessor das Ligas Camponesas e deputado estadual eleito pelo PC de Luiz Carlos Prestes, na legenda do PTB de Getúlio Vargas, de 1955 a 1959.
Três ações exitosas marcaram o mandato de Clodomir Morais na Assembléia Legislativa de Pernambuco, todas elas objetivando a expansão do emprego no Nordeste:

a – Organização e realização do Congresso de Salvação do Nordeste, que deu, logo depois, no surgimento da SUDENE. Deste congresso participaram 1.200 delegados de diferentes classes sociais do Nordeste que, durante uma semana, discutiram tête-à-tête os problemas socioeconômicos dos 8 estados da região.

b – Criou e dirigiu uma ampla delegação parlamentar de Pernambuco e Paraíba aos paises do Leste europeu e outros paises do ocidente europeu a fim de forçar o estabelecimento de relações culturais e comerciais com a União Soviética, Tchecoeslováquia, Alemanha Oriental, Alemanha Federal e demais paises socialistas da Europa e da Ásia, as quais foram possibilitadas nos seis meses do curto governo de Jânio Quadros.

c – Fez a Assembléia Legislativa de Pernambuco aprovar, por unanimidade, o seu projeto de criação do Banco de Desenvolvimento de Pernambuco (BANDEPE). Em tom de brincadeira, Clodomir Morais sempre diz: “Eu sou um lascado em matéria de dinheiro, porém fundei um dos grandes bancos do país.” O papel do BANDEPE sempre foi financiar empreendimentos que possam gerar milhares de postos de trabalho e renda.

Teve os direitos políticos cassados por dez anos e, após dois sofridos anos de prisão em 1962/65, amargou também um exílio de quinze anos no exterior. Através do ato Institucional nº 1, na lista dos cem primeiros cassados pelos militares golpistas, que assumiram o poder em 1964, ocupou o honroso 12º lugar. Exilou-se no Chile, onde atuou no Instituto de Capacitação e Pesquisa para a Reforma Agrária (ICIRA, sigla em espanhol), e logo após, ingressou na ONU (Organização das Nações Unidas), como conselheiro Regional para a América Latina em assuntos de Reforma Agrária e Desenvolvimento Rural.
Desempenhou suas atividades com tamanha competência que gerou convites de várias entidades internacionais. Trabalhou para várias agências da ONU, a saber: OIT (Organização Internacional do Trabalho), PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), FAO (Agência das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação). UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre comércio e Desenvolvimento), ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) e CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe).
Elaborou e dirigiu projetos de Capacitação em Organização em Honduras, Panamá, Costa Rica, Moçambique, Guiné-Bissau, México, Nicarágua e Portugal, e foi consultor dessas agências para missões técnicas na Europa, América Latina, África e Ásia, nas questões de organização camponesa. Clodomir Morais foi professor residente das Universidades de Rostock (Alemanha), Autônoma de Chapingo-UACh (México) e de Brasília (UnB), onde fundou o Instituto de Apoio Técnico aos Países do Terceiro Mundo (IATTERMUND), instituição que tem como objetivo principal gerar emprego e renda, uma vez que o desemprego constitui o problema mais grave dos países em desenvolvimento. O IATTERMUND tem apoiado o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na formação de quadros de nível de base e nível médio, com os TDC- Técnicos em Desenvolvimento Cooperativo.
Criou a Metodologia de Capacitação Massiva Geradora de Emprego e Renda, aplicada em vários continentes (Américas, Europa, África e Ásia), que resultou na criação de milhares de empresas autogestionárias.
As primeiras edições em português da sua cartilha Elementos de Teoria da Organização foram feitas pelo Núcleo de Educação popular 13 de Maio – NEP e pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), através do Caderno de Formação nº 11, cartilha esta que, ao alcançar 1 milhão de exemplares em 34 paises e em 7 idiomas e dialetos, a Câmara dos Deputados do México fez uma edição especial para a criação do PRONAGER (Programa Nacional de Geração de Emprego e Renda) mexicano.
Foi professor conferencista nas Universidades de Berlim (Alemanha), Wisconsin (Estados Unidos), Autônoma do México, em todas as Universidades Autônomas dos paises da América Central, Panamá, Colômbia e Venezuela, na Universidade “Agostinho Neto” de Angola, “Eduardo Mondlane” de Moçambique, Institutos de Pesquisas Socioeconômicas de Harare, Zimbábue, e de Genebra, Suíça. Nos anos em que esteve na Alemanha Oriental, fez o curso de Doutorado em Sociologia da Organização.
Tem inúmeros livros publicados, alguns deles traduzidos em vários idiomas. Destacamos Dicionário de Reforma Agrária América Latina, Queda de uma Oligarquia, o Reencontrado Elo Perdido das Reformas Agrárias (prefaciados, respectivamente, por Josué de Castro, Barbosa Lima Sobrinho e Osny Duarte Pereira), Elementos de Teoria da Organização (com mais de 200 edições na Europa, África, América e Ásia), Teoria da Organização Autogestionária, A Marcha dos Camponeses Rumo à Cidade, Contos Verossímeis (volumes 1 e 2.) e Historia das Ligas Camponesas do Brasil. O seu primeiro livro publicado, O Amor e a Sociedade, reuniu em cem páginas toda a sua produção de poesias líricas e poemas de protesto e de atuação social. O êxito que teve esta estréia, em 1950 (quando tinha apenas 22 anos), lhe valeu a cadeira de Frei Francisco de Monte Alverne, na Academia de Letras da Cidade de São Paulo, criada nos anos 1930 para albergar os intelectuais menores não ingressados na titular Academia Paulista de Letras.
*Joaquim Lisboa Neto é Coordenador e fundador da Casa da Cultura Antônio Lisboa de Morais/ Biblioteca Campesina, criada em 20 de fevereiro de 1980.

Casa de Cultura Antonio Lisboa de Morais
Rua Cel. Antonio Barbosa, 53
Santa Maria da Vitória - BA
CEP 47640-00
Telefone - (77) 3483-2328
e-mails - casacultura.alm@bol.com.br  e casadaculturaalm@hotmail.com

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Folclore Musical de Santa Maria da Vitória
Dança de São Gonçalo
Época: Meados do século XX

As festas em louvor a São Gonçalo do Amarante eram entremeadas de cerimônias coreográfico-religiosas diante da imagem do santo. A festa ocorria em comemoração a uma graça alcançada. Os participantes,reunidos em duas filas, uma de homens e outra de mulheres, cantavam e dançavam. Cada fila era encabeçada por um "guia". As moças vestiam-se de branco e carregavam arcos enfeitados com folhagens e flores de papel branco, reverenciando com exagerados meneios a imagem do santo. Como parte integrante da cerimônia, determinado grupo de moças improvisava uma "Roda de São Gonçalo", em que se cantavam quadras de invocação ao santo casamenteiro, tudo revestido de muito respeito e veneração. As cantorias eram acompanhadas de um conjunto instrumental composto de viola, pandeiro e tambor.

Fonte: Musica Folclórica do Médio São Francisco (Vol.I), páginas 207 e 207.
Autor:Osvaldo de Souza
Publicação do Ministério da Educação e Cultura
Conselho Federal de Cultura Rio de Janeiro, 1979


Título: "Roda"

Na hora de Deus, amem,
Na hora de deus, amem - ô!
Padre, Filho, Esp'rito Santo. (bis)
São Gonçalo de Amarante,
São Gonçalo de Amarante - ô!
não é como os outros santo. (bis)


São Gonçalo de Amarante,
São Gonçalo de Amarante - ô!
não é como os outros santo; (bis)
todo santo qué qu'eu reze,
todo santo qué qu'eu reze - ô!
São Gonçalo qué qu'eu cante. (bis)

Ê-vem o carro cantando,
Ê-vem o carro cantando - ô!
Vem cheio de cravo e rosa; (bis)
São Gonçalo vem no meio,
São Gonçalo vem no meio - ô!
Escuiêndo a mais cheirosa. (bis)

São Gonçalo de Amarante,
São Gonçalo de Amarante - ô!
casamenteiro das velhas, (bis)
porque não casai as moças,
porque não casai as moças - ô!
Que mal lhe fizeram elas. (bis)

Ora, viva e reviva! (bis)
ô!
Viva São Gonçalo, viva! (bis)

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FRANCISCO BIQUIBA DY LAFUENTE GUARANY:

Nasceu em 2 de abril de 1882 em Santa Maria da Vitória na Bahia e faleceu na mesma cidade em 1985. Foi ativo na produção de carrancas desde os seus 20 anos de idade. Jurandi Assis teve a oportunidade de conhecê-lo. Guarany faleceu em 1985 com a idade de 103 anos.

Sempre trabalhou sozinho, como marceneiro e carpinteiro. Fazia de tudo: barris para transporte de água, dornas para guardar cachaça, móveis, madeiramento para telhados, porém sua fama adveio mesmo foi da produção das carrancas, que constituem um importante capítulo na arte popular brasileira.

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Personagens

Ilustra o texto o quadro “O Vapor”, do artista plástico Jurandi Assis – www.jurandiassis.com - de Santa Maria da Vitória. Travessia do rio é imagem recorrente na obra de Osório Alves de Castro.

 

 

Osório Alves de Castro

 

Recriação do linguajar regional, em Porto Calendário, encantou o mineiro Guimarães Rosa.

 

“Barranqueiro, autodidata, alfaiate de profissão, Osório Alves de Castro publicou apenas um livro em vida. Experimentou solidão, glória e esquecimento. Mas escreveu até próximo do fim.”

 

A voz e a costura de Osório Alves de Castro, narrador barranqueiro.

 

Carlos Barbosa

 

O alfaiate estendeu o rolo de tecido do São Francisco sobre a mesa de trabalho. Mediu e cortou. Riscou na peça seus riachos e rios tributários, fazendas, povoações, eitos e capoeiras, fez cortes precisos da história e do perfil do seu povo; alinhavou, tendo em mente o preparo de um traje de gala incomum; recolheu e guardou na prateleira o rolo e as sobras com cuidados de mãe que tem mais filhos a vestir; e, ali, assentado em sua Alfaiataria Rex, costurou com engenho particular aquelas peças memoriais em um indiscutível monumento da literatura brasileira, Porto Calendário: “Firmo desavença devez por todas. Comigo não, minhocão. Tenho represadas na cabeça vozes e vozes confirmando, crescendo aqui no pensamento, como lagamá nas águas. Um dia nem queria saber...e da sua imaginação atormentada, o espetáculo soltava-se nos desabafos marcados pelo delírio, gesticulando e bradando.”

Ali pulsava e ainda pulsa, a fala viva de um povo desvalido, que o alfaiate Osório Alves de Castro deixara para trás no sertão baiano do São Francisco, antes de se firmar em Marília, interior de São Paulo. Entre um arremate e outro, o alfaiate remoia suas vivência e conhecença em anotações feitas em papeluchos retirados da gaveta. Causos que enredava seus romances, nos quais a poesia sempre ponteou..”Sim senhor lhe digo: quando chega o ano novo as canelas-de-velho, no cocuruto dos altos, são como tigelas de louça branca. E vão como uma contagem, caminhando no tempo, amarelado, encardindo até sumir. É só olhar”.

Construído em duas partes, o romance sumariza em linguagem preciosa de vivente da terra e bebedor das águas do velho rio, o distorcido mundo comum, a movimentação do povo de Santa Maria da Vitória, banda de lá do rio São Francisco, porto do rio Corrente, nesta nossa antiga Bahia, às portas do século XX. “A barra do dia já clareava o vulto das benfeitorias. Pesadas, as embarcações com os ventres arredondados, pareciam grandes peixes mortos estirados na ribanceira.”

 

PERPLEXIDADES

 

As histórias se sucedem, uma puxando a outra, tendo o lenhador Pedro Voluntário-da-Pátria como guia sensível e cru. Um homem desprovido de bens, até mesmo de um nome de família. Ganhou o seu no alistamento para a guerra do Paraguai, onde lutou e de onde voltou repleto de cicatrizes e mínimas glórias. Pai de muitos filhos esfaimados, Pedro Voluntário arrasta suas dores e perplexidades aos brados: “porque tenho afirmação: vem dos antigos sem rodeios”. A mesma afirmação que fez de Osório o escritor da saga ribeirinha.

Dos feixes de lenha pra vender  na rua à construção da grande barca “Século Vinte”, acompanha-se também com Pedro as tramas políticas e jurídicas dos poderosos da região e conhece razões e pecados de personagens únicos como João Imaginário, Bê Martins e Tia Gatona que abriga e prepara jovens desamparados para a migração, coisa que os grandes fazendeiros tentam impedir por considerarem “fujança”. “O sertão é como a onça. Pode amansar, não fazer conta das unhas e das presas e viver como um gato de casa ou cachorro de colo.  Mas se se espanta!”.

Preciso em sua crítica social, Osório veste de “Liberdade” a filha de Pedro Voluntário, Aninha, e a faz desfilar pelas ruas da cidade em festa cívica, para depois ser estuprada no escuro da noite pelos filhos dos coronéis. E nos miolos do velho Pedro: “Gosto de falar consigo, machado, olho a olho. Veja só: velho como eu. O esmeril é como a fome; nos rói e prostra. Você é meu amigo. Lustro no seu aço luz da olhada dos meus. Vou lhe falar: quando acabou a guerra fiquei só. Disseram: deixe a espingarda e vai para sua terra. Antes o batalhão passou diante do Imperador Pedro II, lhe juro: o riso da princesa não era tão inocente como o de Aninha, minha filha”.

Osório Alves de Castro migrou para o sul do País nem bem completara 21 anos, mas carregou consigo aquele rolo de tecido sanfranciscano, verdadeira enciclopédia de vozes e quadros existenciais. Rolo de tecido que baixou da prateleira mais vezes para escrever dois romances: Maria fecha a porta prau boi não te pegar (Editora Símbolo, 1978) dedicado à bravura da mulher barranqueira, encarnada em Maria e sua inusitada trajetória: oleira, candidata a conselheirista, santificada na tragédia pessoal em Juazeiro e líder de uma revolucionária comunidade ao retornar à terra natal; e Bahiano Tietê (EGBA, 1990), que retoma personagens do primeiro livro e aborda o drama do baiano que migra para o sul do País. Neste livro, Gey Espinheira viu condição de “romance de identidade nacional, o encontro de um povo na imensidão e no tempo”.

 

PORTO E ROSA

 

Porto Calendário estava pronto no início dos anos 1950. Seus originais foram reescritos em várias ocasiões por conta das apreensões que a polícia fazia, na alfaiataria de Osório, de material considerado subversivo sempre que o arrastava para a delegacia. Osório era comunista militante. E sua alfaiataria era ponto de encontro e prosa tanto de escritores quanto de membros do Partido Comunista. É possível apontar a leitura de Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa, lançado em 1956, como provável vetor que impulsionou o alfaiate a se tornar público escritor. Osório escreveu uma carta, em março de 1957, a J.Herculano Pires tratando do livro de Guimarães Rosa. Essa carta foi publicada na edição de novembro daquele ano na revista Diálogo.

Na carta, Osório disse ao amigo: “O São Francisco é uma liberdade. Agora que o mistério vai se desbulhando, e entrega as suas reservas à linguagem de um romancista, ficamos maravilhados ante esta peleja de medir o universo. (...) Nasci na mesma região, ouvi dentro de minha casa, a subversão da semântica fazendo as conversas como se cavaca nos troncos dos cedros e dos tamboris, o oco das canoas. Decifrando o destino e ranzinzando contra a tristeza, nossa imaginação esparrama-se na terra como as águas da enchente. (...) Riobaldo foi como o rio na enchente. Avançou, tomou as várzeas, engoliu baixadas, rodeou os morros, até que as chuvas cessaram nas cabeceiras. Os marimbus esvaziaram-se na liquência dos buritis. No meio da terra enxuta da lama seca e do mato ralo, Riobaldo virou lagoa.” E anunciou ao encerrar: “Como você sabe, venho há vinte anos, com minha incapacidade, procurando reunir, a meu modo, o que sei das coisas de lá. Senti uma ajuda agora com a coragem e a inteligência de J.Guimarães Rosa”.

Guimarães Rosa tomou conhecimento da carta de Osório antes de sua publicação. Em agosto de 1957, em carta a Paulo Dantas, não deixou por menos;”A espantosa, a estouradora carta, mensagem dos cem mil cavaleiros: aquilo é o sertão do São Francisco, nosso, inteiro, despejando gente célebre, e lugares enrolados, tudo com os respectivos foguetes, tiros, relinchos de cavalos: a carta de Osório Alves de Castro”. E ao próprio Osório endereçou apelos, em carta de fevereiro de 1958: “Espero seu livro, o Porto Calendário. Há de ser irrupção e benção, tumulto fecundo, rajada de chuva”.

Guimarães Rosa registrou em carta a condição humana que os unia, tratando Osório por “companheiro proclamado, amigo ‘prévio’...mano-velho sãofranciscaníssimo, barranqueiro” J.Herculano Pires destrinçou bem o vínculo entre eles: “Osório sai de Guimarães, não porque aprendeu dele, mas porque atravessa as suas páginas, vindo de bem antes delas”. Porto Calendário veio a lume em 1961, pela Livraria Francisco Alves, e recebeu o prêmio Jabuti de melhor romance do ano. Rendeu também ao autor uma curta notoriedade: aparições na televisão, palestras e até viagem a Moscou.

Eliana Pestana, em sua dissertação de mestrado (Unesp/Assis/2004) sobre biografia e fortuna crítica do escritor baiano, que alimentou bem esse texto, revela que Osório deixou prontos dois originais de romances, escritos em seus últimos anos de vida: Nhonhô Pedreira e A cidade do velho. Nascido oficialmente em 17 de abril de 1901 – teria chegado ao mundo em 1898 – Osório morreu em 9 de  dezembro de 1978.

A voz de Osório Alves de Castro é como a água do velho Chico: por mais que tentem impedir, sempre reponta dizendo: “presente”. Eu deveria ter lido no ginásio, lá em Ibotirama, ou no colégio, aqui em Salvador, o Porto Calendário. Mas somente provei da prosa osoriana dois anos atrás, bem depois de ter lançado meu primeiro romance. Mais que espantoso, isso é um absurdo engendrado pelo silêncio que cobre o sertão baiano em todos os círculos do poder. O sertão existe, está dentro de nós, mas depois que calaram Conselheiro, Horácio de Matos, Lampião e o apito a vapor, tem estado quieto feito onça amansada. Mas o sertão continua lá, onde sempre esteve, a corroer nossa alma.

 

CÓDIGOS

 

Os romances de Osório Alves de castro expõem o drama existencial do sertão baiano do São Francisco com uma linguagem rica, encantatória e prenhe de belezas terríveis. São livros destinados a quem busca contato com os códigos genéticos de nossa história campesina e de sua linguagem única, preservada no tempo por séculos de isolamento; e a quem busca enriquecer e maravilhar seu mundo interior com episódios arrebatadores da verdadeira história da nossa gente. Não é possível encontrá-los em livrarias. Mas em sua terra natal, Santa Maria da Vitória, a memória de Osório e sua obra tem um defensor ferrenho em Joaquim Lisboa Neto, responsável pela Casa da Cultura Antônio Lisboa de Morais (casacultura.alm@bol.com.br). Lá é possível encontrar – ao lado de fotografias e documentos – exemplares dos romances de Osório para comprar, inclusive por via postal.

Barranqueiro, autodidata, alfaiate de profissão, Osório Alves de Castro publicou apenas um livro em vida. Experimentou solidão, glória e esquecimento. Mas escreveu até próximo do fim. Penso que o espírito que sempre o moveu, foi sintetizado por Osório ao criar a etiqueta da sua alfaiataria, com versos , em italiano, de D’Annúnzio, traduzidos como: “tudo ambicionei/ e tudo tentei/ aquilo que não consegui/ eu sonhei”.

 

Carlos Barbosa é jornalista e escritor, autor do romance A dama do Velho Chico, publicado pela “Bom Texto Editora” em 2002.

 

Matéria publicada em 20/10/2007 no jornal “A Tarde” – caderno Cultural – Editor interino: Ronaldo Oliveira - Salvador - Bahia

 

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Fotos:

Santa Maria - 1960
Santa Maria - 1950
Santa Maria
Rua da Panificadora - 1950
Santa Maria - 1960
Santa Maria
Prefeitura - 1940
Guarany - 1970
     
Santa Maria
Praça do Jacaré - 1930
Santa Maria - 1940

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